CELINA CASSAL JOSETTI
Celina Cassal Josetti é carioca, flamenguista, nascida e criada em Botafogo. No itinerário de construção de um caryocar brasiliense, atuou como professora da Educação Básica e como formadora de professores, entre 1994 e 2021, na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, também em escolas particulares e faculdades do DF e como pesquisadora no campo do letramento com artigos publicados e trabalhos apresentados em congressos, todos registrados no currículo lattes. É mestra em Literatura e doutora em Educação pela Universidade de Brasília. Na adolescência, estudou na Aliança Francesa de Brasília. Viveu no Rio até os 16 anos, depois na capital de São Paulo, em Valinhos, em Planaltina e em Sobradinho durante 25 anos, hoje reside em Brasília na Asa Norte. Em 2021, publicou Lhufas, pela Editora Nautilus, de Brasília.
Em 2023, publicou a 2ª edição, pela Editora Appris, de Curitiba, o livro Letras & pedagogia: um necessário enlace, dedicado à formação de professores da educação básica. Em 2024, publicou pela editora Avá de Brasília o livro de crônicas intitulado Vinte e Quatro. Participa igualmente de coletâneas: Revista Bacanal de Luiz Reis e Fábio Lucas, Nós 3 do Selo Off Flip, Poesia Visual de Renata Vasconcellos, Mulherio das Letras e Celeiro 9 (no prelo). Atualmente, oferece as oficinas “Cerzido invisível” e “Em outras palavras” destinada a educadores(as) que atuam no 5º e no 6º ano da Educação Básica, divulga seu trabalho em feiras literárias, com destaque para a Bienal Internacional do livro de São Paulo (2024) no estande Escreva, garota! e FliParacatu (2025).
Trabalhou igualmente com Saulo Cruz, Gabriela Sales da Rocha, Lucas Marques e Eliomar Araújo. Assina roteiro de dois produtos audiovisuais produzidos e dirigidos por esses premiados artistas: Brasília do Brasil (2010) e A Brasília que não lê (2011).
I
Millôr x JK
O traço lírico de Alexandre Chan
dirimiu uma discórdia vã.
Ver Brasília como vira Millôr:
apenas “desnecessário tornado irreversível”,
segundo um dia de raro mal humor,
deixaria JK muito triste.
Mas nada como uma ponte
para mediar tamanho conflito:
metáfora de um novo horizonte de beleza e harmonia nesta capital.
II
Saudade do futuro
Nenhuma novidade:
só a saudade do futuro
daquele Rio Doce que corre pro mar.
Mas antes, bem antes dessas fatalidades grandiloquentes da vida,
meu rio impera nas corredeiras,
meu rio move turbinas,
meu rio é generoso com os córregos mais esquecidos,
e bem antes de chegar ao fatídico Oceano,
vai buscar a doçura de um porto ao Norte.
III
Tatuagens
Tem palavra feita do éter da lua cheia,
de ácido sulfúrico,
de sal grosso,
de açúcar mascavo,
de ferro das Minas Gerais
ou mesmo de brisa do mar ao entardecer.
Mas também tem palavra feita de óleo denso e perfumado que azeita peles tatuadas.
Nossos olhos já conversaram demais,
não desperdice palavras,
deixe que hoje e agora as tatuagens se rocem
porque elas sempre duram mais que o amor.
IV
Festa
Prefiro trocar
as coisas de lugar
já que não logro mais
trocar o lugar das coisas.
Pra mim fiz um buquê de flor de lótus
como se celebrasse boda
para a qual a vida não me convidou,
assim festejo
V
Saída Norte
Uma garça do Paranoá já disse que
se você sai buscando um mote
pra que a vida não se esgote
só na modernite de beessebê
siga ao norte
ignore as placas
esqueça as lendas da “estrada da morte”
ouça o canto das musas
ecoando de todas chapadas
escale a Lagoa Feia
ou mergulhe do Morro da Capelinha
talvez,
assim,
você suporte,
a dor do caminhar,
pois não há um lugar,
só um itinerário
onde prosa, música e poesia
não são só mercadoria
se você tiver sorte
achará,
enfim,
a Saída Norte.
VI
Recife
Nem o partido alto
que deixei no Rio
quando vim para o Planalto
nem a catira
que me tirou o gás
no estado de Goiás
nem o samba de roda
do Recôncavo
que amo demais,
hoje eu quero é mais
o porto do frevo
e do maracatu
e alma da meiguice
porque estou no Recife, visse?
O horizonte lírico do Capibaribe
tem Bandeira, João Cabral e Lenine
porque estou no Recife, visse?
Tem o farol da prosa de Clarice
que também ancorou um dia da meninice
porque estou no Recife, visse?
Não quero mais navegar em oceanos
sem portos, faróis ou horizontes
Porque, enfim, conheci o Recife!
VII
desPrezados Senhor Trauma e Senhora Depressão,
Venho por meio desta informar-lhes que Vossas Senhorias não mais acompanhar-me-ão em diligências cotidianas nem sequer em meus sonhos. Resignem-se a ficar devidamente confinados no limbo ou a frequentar almas vulneráreis, não a minha!
Definitivamente,
Lúcia Victória.
VIII
17 segundos
Assegura a astronomia:
a cada 17 milênios marcados,
Pachamama veria
o flagelo dos patriarcados!
O cometa Mater iluminaria
toda a Terra e pouparia
a vida de Rebecca Cheptegei
e as lágrimas de Ninas, Billies e Ellas.
Jamais sangraria
a cada 17 horas
o dilacerado coração delas:
fosse o de Elza ou mesmo de Maria.
Deixemos de lado vaticínios religiosos ou astrais:
a luta é a cada 17 segundos!
Assim, laços não letais
vão sepultar a feminicida mente
para dar lugar à luz prodigiosa e eloquente da mulher.
IX
Revisão da literatura
Deito com Saviani
Acordo com Erickson
Ambos já passaram dos setenta
E ainda conseguem tirar meu sono e fôlego.
Abro então um Leminski no café,
pois essas noitadas de historiografia e etnografia podem deixar sequelas numa tese.
X
Pêndulo
Urbano e rural outrora se opunham
Costumes da cidade impunham estigmas ao povo da roça.
Jovem e velho ainda duelam:
Tradições viram zombaria
Para quem inventa a roda diariamente.
Tolo e sábio tecerão acordos:
Descobrirão que ambos são pretensiosos?
O bom e velho contato visual evanesce
Na cidade onde o hidrante resiste
Ao cheiro da voz que insiste
Ecoar por um barbará.
XI
Planaltina
Saí a minerar uma rima,
não que eu me preocupe muito com isso,
mas parece que quando a gente rima
pode imantar significados musicais
naquilo que se pretende dizer.
Minha palavra tem que rimar com -alta,
só me ocorre malta
que descarto do verso.
Vou ficar com Planaltina
que bem rima com Celina:
um bom caminho para um poema
ou para uma prosa vigorosa.
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Página publicada em março de 2026
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